Vicissitudes

Há dias… que mais valia nem sair de casa. Mêmo!
10h30 a chegar à rotunda da Cuca, no final da N’gola Kiluange, sou mandado encostar por um agente da BET. Após o bate-pala e “Os seus documentos e os documentos da viatura, se faz favor.” costumeiros sou informado que os documentos da viatura não estão “em dia”. Segundo a opinião do agente, e apesar de ter anexo uma cópia do Diário da República e uma carta da empresa de aluguer da viatura, não podia andar com fotocópias dos documentos, mesmo que autenticadas.
Ainda esbocei uma tentativa de explicação, mas revelou-se infrutífera face à “sede” do indivíduo que insistia que a viatura seria apreendida. Saíu-me o seguinte “Olhe, a viatura é alugada a uma empresa idónea. Eu não sou o proprietário e se eles estão em falta com a lei eu não serei certamente penalizado por tal. Identifique-se e pode ficar com a chave da viatura, que eu não vou sequer perder tempo com esta situação.”. Recebi um “O senhor tem que me acompanhar à esquadra na viatura. Eu não vou ficar com as chaves.”
– Pronto! Se assim tem que ser, vamos então à esquadra. (o agente desloca-se para a porta do passageiro)
– Abra a porta.
– Nããããã… Vamos à esquadra cada um na sua viatura. Eu não lhe vou dar boleia. Além de a viatura não ser minha eu não sou taxista. (há quem diga que eu as estava a pedir :P)
– Ai é? Estão espere do outro lado da estrada pelo piquete.
E pronto, lá parqueei no meio da poeira e das vendedoras. Informei os adjuntos, saquei do meu livrinho e deixei-me estar. Passados uns 15 minutos um indivíduo num carro particular apita, faz sinal com a mão para o seguir e acelera por ali fora. Claro está que, no meio do trânsito diurno de Luanda, acabei por o perder. A ele e a todos os meus documentos e da viatura (a forma leviana como um agente da polícia encara um documento pessoal…).
Deduzi pela direcção que tomávamos que a esquadra a que ele se referia seria o Centro de Comando da Brigada Especial de Trânsito. Acabei por o encontrar à porta já dentro da viatura de outro condutor (que se escapou sem ter que entrar. Porque seria?).
Chegado lá dentro:
– Bom, isto é assim (adoro esta expressão. Arrepia-me os pelos das costas dos joelhos), a sua viatura vai ficar apreendida e o senhor vai ser multado.
– Multado? Mas há algo de ilegal nos meus documentos?
– Não, não. O senhor vai ser multado por desrespeito à autoridade.
Aqui não me consegui conter e saíu-me aquele riso mistura de nervoso com escárnio.
– Vamos lá ver uma coisa, pelo sim pelo não diga aqui à frente dos seus colegas que eu não lhe faltei ao respeito… (há que assegurar certas coisas nestas situações. Não vá o diabo tecê-las)
– Não, não. Nunca me faltou ao respeito. Vou autoá-lo por se ter recusado a deixar-me vir na sua viatura.
😐
Resumindo: Passei mais de quatro horas nesta brincadeira e no fim saí com o carro. Ele não me podia multar por não lhe dar boleia e a viatura estava legal. Foi um dia de trabalho c’o caralho!

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11 respostas a Vicissitudes

  1. Quando a gasosa dá mais trabalho do que merece, acaba esquecida.

    Perdemos tempo, aborrecemo-nos, ficamos com vontade de faltar ao respeito à autoridade, que se julga cheia de razão porque tem farda.

    Entretanto, o estrangeiro, que devia estar a trabalhar, fica retido com esta corrupção mesquinha. Se pensarmos bem, está cá para desempenhar uma função para a qual ainda não há angolanos suficientes. É indispensável digamos. E sai caro. A obra não avança, o país também não e a gasosa parece que ficou emperrada.

    No final, quem fica a perder?

  2. Telmo diz:

    Uau. acho que se acontecesse comigo, desrespeitava mesmo a autoridade.
    Quando me acontecem coisas semelhantes sinto-me culpado por alguma vez ter falado mal da minha pátria.

    Esta semana a minha mulher foi visitada pela polícia federal (a PJ cá do sítio) por causa da minha legalização. O sujeito entrou em casa dela sem sequer mostrar identificação e começou a abrir gavetas e a fazer perguntas. Se eu estivesse em casa, seria deportado com certeza. Podia ser o papa, saía tão depressa quanto entrou. Lá liguei ao individuo e disse-lhe isso mesmo. Até hoje não tive notícias. Aguardo ansiosamente a próxima visita… Há situações que conseguem arruinar completamente o meu estado de buda 🙂

  3. engricky diz:

    Pois é Afonso, mas se nem os dirigentes transmitem uma ideia contrária à de que estamos cá só para levar o dinheiro porque é que um mero trânsito há-de pensar diferente?

    O cúmulo é chegar ao fim e o indivíduo vir com uma cara de pau como se nada se tivesse passado, pedir-me o n.º de telemóvel e vir com a conversa do “Aqui em Angola…” (mesmo após eu lhe ter explicado que já cá estou à quatro anos). Aí sim, deu-me uma coisa má aqui pelas tripas.

  4. Miguel A. diz:

    Calma.

    A mim já me aconteceu ter todos os documentos em dia, carta de condução Mangop, e viatura apreendida, ir parar ao comando, e à entrada o ‘transito’ meio sem jeito, ‘ dá só 800 dolares e nem entras…’.

    Valeu vir com um francês de 60 anos, grisalho, da Total no carro, pq aí nem eu escapava, tal era a ‘sede’ deles todos juntos…

    Compreende-se, estavamos a chegar ao dia 20…

  5. engricky diz:

    800 dólares? 😮
    Isso não era sede, era estado puro de desidratação. Vieram a pé do Namibe? 🙂
    E se for na época natalícia?

  6. Miguel A. diz:

    Sim, reconheço que essa foi desmasiado, até para os padrões habituais.

    Mas tb há ‘transitos’ porreiros, sim sr: esta semana que passou mandaram-me parar, porque vinha distraido a falar ao telelé, e o camarada só me disse: olhe que o sr. não pode falar o telefone enquanto conduz, siga lá e não repita.

    Se calhar, era por estarmos aí a dia 2 ou 3, sei lá…

  7. engricky diz:

    No São Paulo já me mandaram encostar por estar a falar ao telemóvel. Encostei e fiquei à espera que o polícia, que estava a regular o trânsito, me viesse passar a respectiva multa. Passados aí uns 2 minutos vem o homem “Se precisa falar ao telemóvel encosta só… Pode seguir.” Bem bala.

  8. Bibbas diz:

    O Policia não obteve o que queria, e provavelmente aprendeu que nem todos pagam gasosas…nem que tenham que esperar 4 horas!!! Good for you!!

  9. engricky diz:

    NOT! NO GOOD for me!! NO GOOD for anyone!!
    Esse é que é o cerne da questão. Achas que o polícia não vai tornar a fazer o mesmo? Achas que não lamentei o tempo que perdi mil vezes? Enfim, achas que eu nunca mais vou pagar gasosas? 😐

  10. Bibbas diz:

    Qd eu disse “Good for you”..era mesmo “good for you”…pois eu não sei se esperava 4 horas hehehehe. Ele vai voltar a fazer o mesmo…mas se calhar p/ a próxima deixa a pessoa ir embora mais cedo! Got it?:)

  11. engricky diz:

    Got it!
    Mas que fique bem claro que eu não esperei 4 horas “de birra” 😉

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