Cortejos etnográficos

Confesso que não sou fã, mas dou-lhes o devido valor cultural.
Pois a semana passada assisti a um destes desfiles entre o cemitério do Camama e a rotunda da estrada de Camama. Vinha eu a sair da picada da nova auto-estrada quando começo a ver o trânsito parado em todos os sentidos. De repente surge uma multidão dumas 150 pessoas vinda da estrada de Camama. Passo compassado ao 4º tempo (juro que me fez lembrar as manifestações Zulu), um bombo, duas cornetas e um trompete (só me apercebi dos instrumentos quando os vi, porque os vidros estavam fechados). Mãos em cima, mãos em baixo. De repente vem um indivíduo duma cantina próxima, ainda com a Cuca na mão, atravessa a estrada, dá um último gole, atira a lata para o lado, faz um passo de kuduro que culmina com um joelho no chão, a outra perna flectida e os braços caídos, desamparados, como se de um espantalho se tratasse, aguenta uns cinco, seis segundos, levanta-se e junta-se à turba para partilhar os festejos.
Para quem ainda não se apercebeu, tratava-se de um óbito. Provavelmente de uma família pobre, pois não havia um único carro (nem um Iáce, imaginem) e toda a família se deslocava a penantes. Pois que as diferenças culturais são enormes… são. Pois que as pessoas têm formas diferentes de encarar a morte… têm. Agora, pararem o cortejo (metade, porque a metade do caixão para a frente continuou até se aperceber passado um bom bocado), aumentarem o ritmo do tambor até ao Kuduro e estarem seis manos a abanar o caixão entre os dois metros e o metro do chão mesmo ali ao lado do meu carro… Desculpem lá. Eu estava à espera (no cantinho dos óculos de sol, para fingir que não apanhava as bocas do branco) que a merda do caixão se abrisse, saísse um corpo desamparado lá de dentro, a voar todo desengonçado e viesse aterrar mesmo em cima do carro de alguém (não vou dizer quem).
Uma coisa é certa, os últimos momentos à superfície daquele corpo foram, sem dúvida alguma, bem animados.
I see you baby, shakin’ that ass… shakin’ that ass.

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3 respostas a Cortejos etnográficos

  1. Bibbas diz:

    Em algumas culturas, e tb na Angolana, quando morre algum líder, o cortejo é a pé. Umas das razoes é porque existe uma aderência grande de pessoas. Assim foi já com algumas pessoas influentes como Mario Pinto de Andrade. A questão de fundo, é que as praticas culturais não acompanharam a evolução dos tempos, não acompanharam o crescimento louco do trânsito de Luanda…e nessas alturas nós angolanos, queremos ser ainda “mais angolanos” e fazemos de agir “como manda o figurino”…sem quase nunca nos perguntarmos se a nossa pratica não esta a dificultar a vida da maioria ou se já não é tempo da nossa prática tb mudar um bocadinho. Eu fico p…da vida qd em pleno sábado apanho um funeral que não me deixa chega ao ginásio a tempo…e pergunto sempre: porque que tem q haver desfile??? Gaita, não seria mais fácil casa um ir no seu carro, estacionar e enterrar!!!!…mas é cultural…: Vou já dizer a minha familia q não quero um cortejo etnográfico heheheh

  2. engricky diz:

    Eu estava mesmo à espera duma explicação plausível para a história de irem todos a pé. Muito obrigado.
    Mas o que ainda me chocou mais foi a forma como abanavam o caixão. Só visto mesmo.

  3. Miguel A. diz:

    Da próxima (!) finge só que falas ao telelé e grava um bocadinho do sobe-e-desce do caixão…

    Nada como viajara par ao lado de lá em festa, isso sim…

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